Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Missão em Timor

Durante 3 anos estarei a fazer uma missão em Timor, pela Ordem dos frades menores capuchinhos, e neste blog tenciono contar todas as minhas aventuras e a percepção que vou tendo dos acontecimentos, tudo de uma forma peculiar que só eu sei viver :D


Segunda-feira, 02.12.13

Um retiro que muda uma vida

Olá amiguinhos! Peço desculpa por não conseguir publicar semanalmente, mas irei tentar fazê-lo mensalmente, no mínimo. {#emotions_dlg.smile}

Continuando a minha aventura (agora com uma racha na cabeça), no dia seguinte ao meu aniversário, no dia 3 de Junho, partimos logo cedo para Dare, para a casa de retiro do ISMAIK (Instituto Sekular Maun Alin Iha Kristu = Instituo secular dos irmãozinhos de Cristo). Desta vez o retiro era para todos os frades capuchinhos em Timor-Leste, mas devido a um contratempo a fraternidade de Laleia não pode comparecer, ficando apenas a minha. Confesso que não estava com vontade nenhuma de ter um retiro, tinha acabado de vir de um, e queria aproveitar o tempo para colocar tanto o blog como a crónica da fraternidade em dia, mas tive de ir e ainda bem que fui, valeu mesmo muito a pena.

O retiro ia ser pregado pela irmã fundadora do ISMAIK, a Mana Lu (Irmã Lurdes) e não havia um tema específico, queríamos apenas que ela nos contasse a sua experiência de vida como fundadora de um instituto que já conta com 25anos de existência e é conhecido um pouco por toda a Ásia e vai começando a ser conhecido na Europa também. Ela domina três línguas, o tétum, o indonésio e o português (o que foi a minha sorte). Em português só fez uma conferência, a primeira, as outras foi em tétum, para que a maioria pudesse entender melhor. Até ia percebendo algumas coisas do que ela dizia nas conferências, mas a grande magia do retiro não aconteceu nesses encontros, aconteceu fora dos encontros, nas horas dedicadas à meditação. Tudo começou quando, estando eu sozinho no refeitório a comer qualquer coisa, apareceu a Mana Lu. Começou a falar comigo e a perguntar se percebia o que ela dizia durante as conferências. Disse-lhe que não percebia muito, só algumas coisas, e começamos a conversar. E foi a partir desse momento que comecei a ter as minhas conferências privadas. Confesso-vos que foram as melhores horas do retiro. Todos os dias, depois da conferência com todo o grupo, encontrávamo-nos só os dois no refeitório para trocar ideias e experiências de vida. Senti-me insignificante perante a experiência de vida dela, como se tudo o que tivesse feito fosse uma migalha no meio dum pão que era a vida dela, percebi que até agora só tinha aprendido a dizer a letra A e que ela já escrevia livros… Tal como disse S. Francisco perto da sua morte “Irmãos comecemos que até agora pouco ou nada fizemos…” e foi este NADA que eu senti, este vazio de acções, de cumprimento da vontade de Deus, que senti quando comecei a ouvir as maravilhosas histórias de vida da Mana Lu. Ela começou tudo quando tinha 14 anos, enfrentou chuva, frio e vento, passou fome, dormiu em casas em ruínas, lutou contra todos os que a queriam deitar abaixo (e continua a lutar), venceu umas batalhas, perdeu outras, mas nunca desanimou e acreditou sempre na Providência Divina que nunca a abandonou.

Vou partilhar um pedaço da vida dela com vocês, aquela história que mais me marcou. Já depois de ter fundado o ISMAIK (não foi a primeira coisa que fez quando sentiu o chamamento de Deus), ela enviou os seus candidatos (rapazes e raparigas que querem seguir o exemplo de vida da Mana Lu) a visitar as aldeias vizinhas para que eles tivessem conhecimento das dificuldades que eles estão a passar e como os poderiam ajudar. Quando chegaram a casa reportaram que havia famílias que nem tinha dinheiro para comprar arroz, que é talvez do alimento mais barato aqui em Timor e aquilo com que normalmente as famílias se alimentam. A Mana Lu não pensou duas vezes, foi à dispensa, pegou em todo o arroz que tinha e mandou distribuí-lo pelas famílias necessitadas. Os candidatos ficaram preocupados, porque depois seriam eles que ficariam sem comer. Ela mandou-os levar o arroz e disse-lhes para acreditarem na Providência Divina, que nunca deixa os seus filhos passar fome. E assim sucedeu, a meio da tarde, enquanto alguns candidatos foram levar o arroz às famílias carenciadas um carro vermelho parou em frente do portão de baixo da casa, buzinou para que se apercebessem que alguém tinha chegado, descarregou vários sacos de arroz e outros alimentos, entrou no carro e foi-se embora sem se identificar… A Mana Lu e alguns candidatos que ficaram em casa ficaram entusiasmados com a oferta e louvaram a Deus pela sua generosidade. Depois de recolhidos os sacos eles não foram imediatamente guardados na dispensa, levaram-na para a capela da casa e esperaram a chegada dos outros candidatos. Quando eles chegaram a casa, a Mana Lu convidou toda a gente a ir à capela rezar. Os candidatos ao verem aquela quantidade de arroz e comida choraram de alegria, louvaram a Deus pelas suas maravilhas e deram graças pela Sua generosidade.

Muitas histórias ela me contou e em todas elas teve sempre algo em comum, nunca deixar de acreditar em Deus, Ele é que nos guia na nossa vida, Ele é que sabe o que é melhor para nós e só n’Ele é que está a felicidade eterna.

Saí do retiro revigorado, com um espírito renovado. Sempre que lia as fontes franciscanas, principalmente as biografias de S. Francisco, ficava a pensar como terá sido viver com S. Francisco e Sta. Clara, como terá sido conviver com eles, beber directamente do seu espírito, sentir a sua fé em Deus, ser pessoalmente iluminados pela sua luz. Pois vos digo que já não penso mais nisso, depois de conhecer a Mana Lu obtive todas estas respostas que não se explicam por palavras, mas só se conseguem sentir, tanto na alma como no coração.

Estes somos nós com a Mana Lu, uma mulher espantosa {#emotions_dlg.happy}

 

Paz e bem amiguinhos! Estaremos juntos na oração e no coração.{#emotions_dlg.heart}

Autoria e outros dados (tags, etc)

por missao em timor às 01:05

Domingo, 20.10.13

E já lá vão 28...

A minha mãe ligou-me para o telemóvel e disse-me: “Filhinho querido muito amado da mamã (os meus irmãos podem desmentir, por ciúmes, mas ela disse-me mesmo isto) não dá para falarmos pela internet?” “Dá, podemos usar o skype e, como ambos temos webcams, até nos conseguimos ver um ao outro, mas vocês têm de se pôr on-line, senão não consigo fazer a chamada”. E a minha família pôs-se toda em fila indiana… (on-line = em linha). {#emotions_dlg.lol}

Passemos a coisas mais sérias. Continuando a minha aventura, depois do aniversário do frei Isidóros não houve mais nenhuma actividade extraordinário, apesar do mês de Maio ter sido um mês bem preenchido. As actividades foram muito idênticas com procissões em honra de Nossa Senhora todas as segundas, quartas e sextas fazendo a imagem circular todos os bairros. Celebrava-se a missa no bairro onde se encontrava a imagem de Nossa Senhora e seguia-se a procissão para o bairro seguinte onde a população local, depois de receber Nossa Senhora com toda a pompa e circunstância, nos oferecia um lanche/convívio. Destaco apenas o dia 13 de Maio, que sendo o dia comemorativo da 1ª aparição de Nossa Senhora em Fátima, contou com a representação da Irmã Lúcia, Jacinta e Francisco por três criancinhas vestidas a rigor.

Chegamos assim ao mês de Junho, um mês especial para mim. Este mês começou logo com um retiro, o que me começou a atrapalhar um pouco. Fazia anos dia 2 (28 aninhos) e não iria poder estar em casa para poder falar com a minha família pelo Skype (eles já sabem o que é estar on-line), a única solução seria o telemóvel. Chegados ao local do retiro, em Maubara, na casa das Irmãs Carmelitas, comecei a ver cada vez mais patente o pesadelo de um aniversário sem comunicação com a família, NÃO HAVIA REDE no telemóvel naquele local{#emotions_dlg.tlm}. Sem telemóvel e sem internet a comunicação seria impossível, a única solução seria esperar que o retiro acabasse e ligar eu para a minha mãe, coisa que não queria, porque as chamadas são caras… Desligado de todas as comunicações aproveitei o retiro não só para aprender mais sobre o Catecismo da Igreja Católica, mas também para perceber como o poderia aplicar melhor na minha vida. Nos intervalos do retiro não se falava de outra coisa senão no meu aniversário e como o iriamos comemorar assim que chegássemos a casa. Para surpresa minha, no dia 2 de manhã (Domingo), as irmãs prepararam-me um bolo muito gostoso para me cantarem os parabéns. Mas o melhor ainda estaria para vir, assim que terminamos o retiro fomos logo embora, sem perder tempo (e eu já aliviado, porque sabia que assim que chegasse à estrada principal iria ter rede no tlm) mas, 5min depois de chegarmos à estrada, o frei Isidóros parou o carro e desligou-o. Pensei que se tivesse esquecido de alguma coisa. Perguntei-lhe o que se passava e ele respondeu-me “Não é hoje o teu aniversário?” “Sim”, respondo eu, “Não é teu desejo dares um mergulho nos mares timorenses?” “sim” e tirando as calças disse “então vamos todos à praia dar um mergulho…” Não hesitei, mesmo sem calções de banho (fui com os de ganga que estava a usar no momento) fui a correr para a praia dar um mergulho, mas comecei a arrepender-me assim que comecei a entrar na água. Não que ela estivesse fria, pelo contrário, nunca tinha entrado em água tão quente, mas é que no fundo do mar não havia areia, como em Portugal, só rochas e precisei andar muito para que a água me chegasse à cintura para poder mergulhar em segurança (culpa também dos meus 3metros de altura, claro)… Foi a melhor prenda de anos que me podiam ter dado. Dou mais valor aos gestos que às prendas em si (apesar de também valorizar as prendas, claro) e este gesto foi muito significativo para mim, porque neste dia, apesar de estarmos todos cheios de vontade de regressar a casa, o frei Isidóros fez questão de realizar o meu desejo pessoal… {#emotions_dlg.happy} Desde este dia que, sempre que saímos em fraternidade, é para uma praia que vamos.

Tive que desligar e voltar a ligar o telemóvel para voltar a ter rede (estúpido telemóvel) e foi quando recebi a minha primeira (e única) mensagem de parabéns. Era a Sister Rose a desejar-me felicidades e a dizer que, apesar de eu não ter estado presente na missa, o frei Fernando fez questão de mencionar que hoje era o meu aniversário e toda a comunidade rezou por mim (graças a isso andei duas semanas a receber os parabéns {#emotions_dlg.smile}). Aos meus amigos no fb, apesar de ter prometido que ia responder a todos, ao fim de 2meses a tentar desisti (eram mais de 300 mensagens)… a net é muito lenta e muito cara também… vocês compreendem. Entretanto consegui falar com a minha família, não me lembro é dos pormenores da chamada, mas lembro-me que me cantaram os parabéns. Mas de uma coisa me lembro, o meu irmão não me ligou, mas não fiquei triste, porque sei que não fez de propósito, ele é distraído por natureza {#emotions_dlg.blink}

À noite, durante o jantar, a fraternidade celebrou o meu aniversário com direito a convidado(a) especial, a irmã São, das irmãs concepcionistas ao serviço dos pobres que apareceu por lá de tarde para combinar a ida a Liquiçá para uma vigília de oração e adoração ao Santíssimo Sacramento e ficou para jantar. A festa decorreu segundo o protocolo timorense, com direito a discurso e brinde. É muito bom e especial poder celebrar o nosso aniversário em família. Obrigado a todos os que se lembraram de mim, mesmo que não me tenham dado os parabéns, como o meu irmão {#emotions_dlg.happy}

Estou de férias da faculdade, o que significa que terei um pouco mais de tempo para escrever o blog e colocar as histórias em dia. Espero que consiga {#emotions_dlg.smile}

Paz e bem amiguinhos! Estaremos juntos na oração e no coração. {#emotions_dlg.heart}

Autoria e outros dados (tags, etc)

por missao em timor às 08:18

Sexta-feira, 19.04.13

Finalmente!!!

Olá amiguinhos! Desculpem a minha ausência, disse que iam ser apenas 15dias, mas não tive tempo para escrever nada, o tempo está a ser tão bem aproveitado que chego à noite completamente esgotado. Mas há que ver o lado positivo, quantas mais actividades tiver mais coisas tenho para vos contar {#emotions_dlg.tongue}

Continuando a aventura… No dia seguinte ao retiro em Dare, na segunda-feira 4 de Março, depois de mais um dia de aulas, tivemos um dia muito esperado por toda a fraternidade, a bênção da nossa nova mota. Como os trabalhos pastorais se multiplicaram, apenas um carro deixou de ser suficiente para responder a todos os serviços, sendo assim decidimos comprar a mota para nos apoiar nas deslocações. Depois do almoço reunimo-nos todos em volta do “novo membro” da fraternidade. Durante o acto da bênção o superior pediu para que a mota fosse usada com consciência, responsabilidade e segurança. No final todos nós pudemos sentar e experimentar a nova menina. Quanto a mim vou começar a ter aulas de mota para tirar a carta (desculpa mãe, sei que não gostas de motas, mas prometo ser um bom menino na estrada).

 

 

Tal como em Portugal, aqui em Timor também estamos no tempo da chuva. A diferença é que a chuva de cá não vem acompanhada de frio gelado, mas de uma ligeira descida de temperatura, tipo 19ºC {#emotions_dlg.sol} . As chuvadas foram fortes, criando grandes rios, mas sem inundações, o que fez com que o esgoto de escoamento junto de nossa casa ficasse entupido com variados tipos de lixo, especialmente terra e folhas de palmeira. Fartos de esperar por uma acção do ministério das infraestruturas decidimos pôr mãos à obra e, a exemplo dos frades menores capuchinhos dos primeiros tempos, fomos fazer aquele trabalho que é necessário, mas que ninguém quer fazer. E preparámo-nos todos, no sábado de manhã com pás, sacholas, arados, catanas e carrinhos-de-mão e fomos limpar a estrada. Um trabalho de grupo que nos ocupou a manhã toda e deixou-nos completamente esgotados. No final do trabalho ficou a certeza de que nos próximos dois anos não teremos problemas com o escoamento da água. E como o dia ainda era uma criança, principalmente para vocês que tinham acabado de acordar, de tarde, apesar de muito cansado, ainda tive que ir, juntamente com o frei Agostinho, ensaiar o grupo coral para a animação da missa do dia seguinte que, mais uma vez, iria ser eu a dirigir… Eu admiro-me como eles ainda pensam que eu percebo de música e que sei cantar… Parece que o segredo está em fazer as coisas com confiança {#emotions_dlg.ok}

No dia seguinte, Domingo, depois de ter dirigido o grupo coral, que mais uma vez cantou maravilhosamente bem (não graças a mim que só me limitei a dar a entrada com a viola e a marcar os tempos) eu, o frei Agostinho e os jovens de Tíbar iniciamos o nosso retiro da quaresma, em jeito de peregrinação, até à estátua do Papa João Paulo II, uma caminhada de cerca de 35min pelo meio da montanha. Como sou uma pessoa que trata sempre de tudo atempadamente, tenho sempre tudo bem organizado e nunca me esqueço de nada, depois da missa tive que dar corda aos sapatos e correr até casa (com a mochila e a viola às costas) para ir buscar o pão que tinha ficado no forno (felizmente desligado senão torrava o pão) para comer durante o almoço, que seria partilhado, e voltar à estrada para me juntar ao grupo… Não sei se fui eu que dei uma de Speedy Gonzales ou se foram eles que decidiram andar a contemplar todas as pedras que encontravam pelo caminho, o que é certo é que quando os apanhei ainda só tinham andado cerca de 200 metros… o retiro contava com uma caminhada e algumas paragens pelo meio para uma pequena reflexão sobre a fé, visto que a Igreja celebra este ano o Ano da Fé. Na peregrinação participaram cerca de 25 jovens. Chegando ao local Fizemos a nossa última reflexão, todas elas baseadas na fé das principais personagens bíblicas, partilhamos experiencias, expressamos o que sentimos durante o retiro e deram-se algumas sugestões para encontros futuros. Terminada a reflexão fomos todos almoçar ao som de música ao vivo tocada por um dos jovens que caminhou connosco. Como a hora prevista para o frei Fernando nos vir buscar era para as 14h e ainda só eram 13:15h decidimos todos atravessar a rua e ir à praia. Comecei a esfregar as mãos e a pensar “É hoje que vou dar um mergulho”… Chegados lá, começaram todos a ir para trás de umas rochas, não fiquei atrás e fui também pensando que ia encontrar um pequeno paraíso, mas afinal não passava de uma simples baía sem grande beleza. Voltei para trás, tirei a t-shirt e preparei-me para ir ao banho. Quando estava prestes a mergulhar, com a água já acima dos joelhos começo a ouvir “frei Tinoco mai frei Fernando foin to’o”(frei Tinoco vem, o frei Fernando já chegou). Completamente desiludido lá fui eu para o carro… posso dizer-vos que já lá vão 6meses e ainda não dei um mergulho em Timor… Mas hei-de dar e ainda este ano, espero eu…

Amiguinhos desta vez foi um texto um pouco mais curto que o normal, mas espero que gostem. A todos desejo uma boa Páscoa (até ao Pentecostes ainda é Páscoa) e que continuem a divertir-se com o meu blog. {#emotions_dlg.happy}

Paz e bem amiguinhos! Estaremos juntos na oração e no coração {#emotions_dlg.heart}

Autoria e outros dados (tags, etc)

por missao em timor às 00:50

Quarta-feira, 20.03.13

Quem és tu, miuda?

Olá amiguinhos! No passado dia 24 Fevereiro (Domingo) tivemos um encontro com os nossos candidatos à vida franciscana capuchinha. Como era eu que estava de serviço na cozinha avisaram-me logo que, para o almoço, seriam cerca de 20 rapazes e todos com grande apetite, principalmente por arroz. J Comecei a pensar qual seria a melhor refeição para lhes dar, visto que ia cozinhar para quase 30 pessoas (20 candidatos + 8 frades), e decidi-me pela minha famosa feijoada {#emotions_dlg.happy}

A ideia era ir à missa e, logo de seguida, vir para casa preparar a grande almoçarada. E assim o fiz, acabada a missa, despedi-me de algumas pessoas e aproveitei a companhia das irmãs noviças que me acompanharam até casa. Mal entrei em casa fui logo ter com o frei Isidoros para saber ao certo o número de pessoas que estariam no almoço. Afinal iríamos ser apenas 18, alguns rapazes não tinham comparecido ao encontro. Estes encontros realizam-se uma vez por mês, durante um ano e visa dar a conhecer quem é S. Francisco de Assis, a nossa espiritualidade, o nosso carisma e a nossa vida de franciscanos capuchinhos. Normalmente é só durante uma manhã e conta com o acolhimento, um encontro formativo e a missa. Depois do almoço os rapazes têm uma conversa privada com o responsável pela formação, o frei Isidoros, para ele saber como vai o crescimento e amadurecimento da vocação de cada candidato.

Depois de saber ao certo a quantidade de pessoas que iam almoçar fui directamente à cozinha para tratar de tudo. Fiquei surpreendido e um pouco triste quando vi que o almoço já tinha sido adiantado, o feijão já estava ao lume e praticamente só faltava o arroz. Comecei a preparar o arroz e separei o suficiente para 20 pessoas, para quem quisesse repetir. Quando o frei Isidoros viu o arroz (ainda a ser lavado) disse-me logo que era pouco e que deveria fazer pelo menos o suficiente para 30 pessoas. Não quis acreditar, achei um exagero, mas como ele conhece melhor os timorenses fiz tal como ele tinha dito. No final não sobrou um grão de arroz… Valeu a voz da experiência… {#emotions_dlg.happy}

O tempo da quaresma está quase no fim e ainda nem vos falei como celebramos a nossa via-sacra cá em casa. Nestes 40 dias que antecedem a Páscoa vivemos mais intensamente um caminho de penitência, de renúncia e de conversão. É nesta época que celebramos particularmente a paixão de Jesus, a sua grande entrega por nós, para nos salvar e nos reconduzir ao Pai. E como tal todas as sextas-feiras recordamos as últimas horas de Jesus e a sua grande entrega por nós. Para melhor entenderem o que é a via-sacra, basicamente é dividir em 14 partes (ou 15 se incluirmos a ressurreição) o filme de Mel Gibson “A paixão de Cristo”. Como a nossa quinta é enorme espalharam-se as cruzes todas à volta dela. Nunca pensei ver uma via-sacra tão concorrida, à excepção da via-sacra ao vivo que se costuma fazer na minha paróquia. Eramos uma centena, 8 frades e 92 mosquitos. Foi pena não termos chegado todos ao fim, alguns dos mosquitos foram esmagados pelo caminho… {#emotions_dlg.clown}

Como a Igreja Católica está a viver o ano da fé, proclamado pelo Papa Bento XVI (agora resignado), a nossa formação de pós-noviciado não foge à regra e também se centra toda ela na fé. Dividida em 5 partes, a formação centra-se nos ensinamentos do Catecismo da Igreja Católica e conta com os temas “Fé celebrada”, “Fé professada”, “Fé vivida”, Fé rezada” e, já mais baseada nos documentos do II Concílio Vaticano, “A fé nos documentos conciliares”. E é a partir destes pontos de referência que se vão centrar não só a nossa formação, mas também os nossos retiros, tal como o que fizemos no passado dia 2 e 3 de Março. Acordamos bem cedo, como de costume, para a celebração da missa e, logo a seguir ao pequeno-almoço (ou mata-bicho, como se diz em Timor) partimos para Dare, a zona que nos ia acolher. Todo o caminho para lá chegar foi uma grande aventura, como gosto de apreciar as paisagens prefiro vir sempre na parte de trás da nossa pick up apanhando assim também com algum vento que me ajuda a refrescar deste calor que se faz sentir por cá (vocês ainda sabem o que é isso, certo? {#emotions_dlg.clown}). Dentro da cidade apanhei com chuva, fora da cidade apanhei com um deserto populacional. Cheguei a andar mais de 30min no meio da montanha sem ver viva alma. Parecia uma autêntica savana, com grandes árvores tropicais e uma estrada de terra batida difícil de se circular, só faltaram os leões para completar a paisagem “savanista”. Já perto do local onde íamos ficar hospedados começamos a ver população. Estavam a compor a estrada, eram quase 10 pessoas (contando mulheres e crianças [cf Mt14,21b] {#emotions_dlg.tongue}). Tivemos sorte em não nos cobrarem portagem. Como o estado não se decide ajeitar aquela estrada (e ainda por cima a estrada que o primeiro-ministro percorre todos os dias para ir para casa) a população vai dando um jeito, cobrando cerca de 1dolar a cada viajante para poder fazer cobro à despesa que dá compor a estrada. Finalmente chegamos ao local, estávamos ansiosos para ver onde iriamos ficar hospedados. A casa pertence ao ISMAIK, um instituto secular que depende financeiramente dele próprio, pois não recebem qualquer contrapartida do estado ou de qualquer outra organização, apesar do excelente trabalho que fazem com a população local, principalmente com os jovens. Prontamente nos indicaram o quarto onde cada um iria ficar e ofereceram-nos um lanche, o que foi muito bem-vindo, porque já estava com fome. Durante a manhã e a tarde do fim-de-semana tivemos vários encontros e plenários para falarmos do tema “Fé celebrada” tanto na Igreja, através do Catecismo da Igreja Católica, como em S. Francisco e Santa Clara de Assis, através dos seus escritos e fontes. Ao fim da tarde de sábado, quando me dirigia para a capela, cruzei-me com uma rapariga que, apesar de estar um pouco escuro, percebi que era portuguesa. Cumprimentei-a e ela respondeu com “olá! Tudo bem contigo? Não sabia que eras tu que vinhas cá!” fiquei assustado, não fazia a mínima ideia de quem ela era e claramente ela sabia quem eu era… disse-lhe muito timidamente que sim, que ia fazer lá o retiro, em seguida ela pergunta-me “E então, estás a gostar de cá estar?” “Sim, é fantástico (respondi sempre muito tímido). Estou a adorar cada minuto cá, faz hoje 5meses que cheguei e tem sido aventuras todos os dias”, ela não ficou muito surpreendida com o que eu disse e sorriu. Como percebi que estava a meter água despedi-me dela dizendo que tinha que ir para a capela (o que não deixava de ser verdade). Como estava escuro e não havia electricidade, ela emprestou-me um foco, o que foi crucial nessa noite e também uma desculpa para voltar a vê-la e tentar descobrir quem era esta misteriosa rapariga. E comecei a pensar de onde a poderia conhecer… Do Amial (Porto) era impossível, senão ela sabia que iria estar lá de certeza, da Jobifran também não pelas mesmas razões, a não ser que fosse um antigo membro e estivesse desligada do movimento, só restava Gondomar, mas não conseguia associá-la a ninguém conhecido… Tinha que saber o nome dela, seria uma grande ajuda para desvendar este mistério… No final do jantar, uma das raparigas do ISMAIK veio levantar a mesa e subtilmente meti conversa “Olá, eu queria devolver o foco aquela rapariga portuguesa, provavelmente deve estar a precisar dele” “Quem a Susana? “ “Sim, a Susana. Depois diz-me onde ela está.” A rapariga concordou… A conversa resultou, consegui o que queria, o nome da rapariga misteriosa, Susana… agora só faltava puxar pela cabeça e ver quantas Susanas conhecia e qual delas se encaixava no perfil desta Susana… depois de muito pensar percebi que nenhuma das poucas Susanas que conheço correspondiam com esta Susana… voltei à estaca zero… entretanto fui para a capela a fim de rezar o terço e adorar o Santíssimo Sacramento aproveitando assim para esvaziar a mente. Depois voltaria a pensar no assunto… e resultou, caminhava eu para o meu quarto, depois da oração, quando me lembrei de onde conhecia a Susana e tive um ataque de riso e vontade de me esbofetear ao mesmo tempo… A Susana conhecia-a nada mais nada menos que no dia 2 de Fevereiro, no dia dos consagrados, aqui em Timor na festa em que participei com todos os religiosos da Diocese de Dili (Ela é voluntária no ISMAIK e como trabalha directamente com religiosas também apareceu). Tinha-a visto na festa, apercebi-me que era portuguesa e meti conversa com ela. E era normal que eu não soubesse o nome dela, não chegamos a apresentar-nos devidamente. Fiquei muito mais aliviado e com a consciência tranquila, até porque tinha a certeza que ela também não sabia o meu nome… {#emotions_dlg.snob} No dia seguinte fui ter com ela, devolvi-lhe o foco, apresentei-me devidamente, conversamos um pouco sobre as nossas aventuras em Timor e aproveitei para fazer publicidade ao meu blog (não perco uma oportunidade para o divulgar {#emotions_dlg.happy}), mas nunca lhe mencionei isto… agora ela já sabe... :P Outra cena que achei caricata nesse dia (3 de Março) foi a confusão que fizeram com o aniversário da minha irmã mais nova. Como ela fez anos nesse dia, aproveitei par celebrar uma missa de acção de graças pelo dom da vida dela (a minha modesta prenda de anos). No final qual foi o meu espanto quando todos me vieram perguntar se era eu que fazia anos, como tinham ouvido o nome Tinoco associado a um aniversário… Dois dias depois ainda recebi uma mensagem a desejar-me os parabéns, da Susana… :P É certo que farei anos a um Domingo, também no último dia de um retiro, mas é só em Junho, ainda faltam 3 meses… {#emotions_dlg.lol}

Amiguinhos, tenho uma má notícia para vos dar, vou entrar de férias da Páscoa e o acesso à internet vai ser extremamente limitado, resumindo, o blog vai ficar cerca de 15 dias sem receber publicações, mas prometo que, assim que puder, irei publicar nova página. {#emotions_dlg.smile}

Paz e bem amiguinhos! Estaremos juntos na oração e no coração! {#emotions_dlg.heart}

Autoria e outros dados (tags, etc)

por missao em timor às 02:11


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Janeiro 2016

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31





Links

Blogs sobre missões

Frades Menores Capuchinhos


Facebook