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Missão em Timor

Durante 3 anos estarei a fazer uma missão em Timor, pela Ordem dos frades menores capuchinhos, e neste blog tenciono contar todas as minhas aventuras e a percepção que vou tendo dos acontecimentos, tudo de uma forma peculiar que só eu sei viver :D



Sexta-feira, 13.02.15

Promoção vocacional

Olá amiguinhos, se na publicação anterior vos falei de como são os meus diálogos com o frei Luan, desta vez irei mostrar-vos como são os meus diálogos com outros seres. Sim, seres, porque estas três peças não são pessoas, são animais. Há um ano que adoptamos um casal de gado bovino e em Outubro do ano passado tiveram a sua primeira cria e todos os três têm nomes próprios. O boi chama-se “Tíbar”, a vaca chama-se “Nina” e o pequenito chama-se “Bambi” (sugerido por mim, mas ainda não definitivo) mas há quem o queira baptizar de “Laleiano”, em homenagem a Laleia onde iniciamos a nossa presença capuchinha, ou de Domingos, por ter nascido a um Domingo.

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 Nina vs Eu – Primeiro round:

Fui alimentar o gado na hora do almoço e veio a Nina ter comigo. Olho para a manjedoura e reparo que só tinham comido metade da comida que lhes tinha deixado de manhã e disse-lhe:

- Mas que vem a ser isto?! É para comer tudo, estão sempre a queixar-se que querem comida e agora não comem? COMER TUDO, não vos dou mais comida enquanto não comerem o que vos dei de manhã. Que é isso? Nós não somos ricos, não podemos desperdiçar comida, ai mau Maria…

E o incrível aconteceu, ela começou a comer o que estava na manjedoura… e comeu tudo…

 

Tibar vs Eu – Segundo round

Fui novamente alimentar os animais. Como a erva verde acabou começamos a dar erva seca que armazenamos e disseram-nos que para os animais a comerem era preciso molhá-la senão não comiam por ser demasiado áspera. Sempre que alguém está a chegar junto deles com o carrinho de mão cheio de comida eles vêm logo a correr para a manjedoura, já sabem o que lhes espera…. Mas desta vez isso não aconteceu, os 3 ficaram deitados na casa deles. Mas quando o Tibar me viu a mexer na comida que estava na manjedoura veio, muito devagarinho, ter comigo numa de ver o que eu estava a fazer. E lá estava ele com a cara virada de lado a olhar para mim de esguelha quando começo a meter-lhes comida fresca. O Tíbar, muito desconfiado, com ar de importante e com muita esquisitice, lá cheira a comida que lhe pus, olha para mim com ar de como quem diz “Achas que eu vou comer isto? Paciência…” vira-me a cara, vira as costas e vai-se deitar na casa dele. E foi aí que percebi que eles não gostam da palha molhada, removi toda a comida que eles tinham na manjedoura e dei-lhes um novo fardo de palha seca. Quando fui dar a refeição seguinte a manjedoura estava vazia… De realçar o ar de importância do boi…

 

Nina vs Eu – Terceiro round

Fui novamente dar-lhes de comer, olho para o curral e só vejo o Tibar e a Nina, o Bambi não o vi. Assustado por não o ver pergunto à Nina:
- Ó amiga, o teu filho onde anda? Onde está o puto?

Ela volta a cabeça para o lado com alguma velocidade como que a dizer “Está ali”. Eu olhei e estava mesmo…

 

Bambi vs Eu – Quarto round

Estava mais uma vez de manhã a alimentá-los com erva seca e enquanto eles comiam eu disse-lhes:

- “Bom, para o almoço vou dar-vos um carro de erva verde e outro carro de Ai-café” (uma árvore típica de Timor que eles gostam muito). E enquanto lhes dizia isso o Bambi ia abanando a cabeça a dizer que sim…

 

Bambi vs Eu – Quinto round

O Bambi está doente, está quase cego. Devido aos vários insectos que andam junto deles, um desses insectos entrou-lhe no olho esquerdo, inflamou-lhe o olho e agora está cego desse olho. Já começamos a fazer um tratamento, mas não temos muita esperança. Antes de ir de férias quis ver como ele estava e fui ao curral deles. Como ele estava muito afastado comecei a chamá-lo como se fosse um cão tipo:

- “Ó pequenino anda cá, anda, anda… anda cá menino, vem a mim, vem… (enquanto mandava beijinhos e batia com as mãos nas pernas, tal como fazemos para chamar os cães).

E não é que ele veio mesmo ter comigo?! Foi tão querido… Foi a minha cena com eles que mais gostei…

 

PS: Deviam ver a cara de orgulho do Tibar quando nasceu o Bambi e eu lhe disse: “Ah seu animal, parabéns, tens aí uma bela espécie ah, muitos parabéns. Grande boi que tu és…” Ele ficou mesmo orgulhoso com estas minhas palavras.

 

Olá amiguinhos, podia-vos contar muitas mais histórias com estes três animais, mas talvez fique para uma outra próxima… Continuando as minhas aventuras por Timor, chegamos ao mês de Setembro. Foi no primeiro dia de Setembro, o pós-noviciado tinha programado ir a Lete-foho, à terra do frei Manuel, fazer promoção vocacional, apresentarmo-nos e dar a conhecer quem são os franciscanos capuchinhos, onde estamos e o que fazemos. A viagem começou muito cedo, por volta das 4h da manhã. Não podia ser pior hora para eu viajar. O meu estômago é tão preguiçoso que o corpo e o cérebro acordam a uma hora e ele só acorda 1h depois. Eu explico: Quando acordo tenho sempre a sensação de ter o estômago fechado e não consigo mesmo comer nada, só passado sensivelmente 1h depois. Ora como saímos às 4h, acabei por sair sem comer nada. Quando o estômago acordou eu já ia avançado na viagem e, devido aos buracos da estrada, o estômago acordou aos sobressaltos, como se estivesse num carrossel. Ele não aguentou a tribulação e eu tive que mandar parar o carro para chamar o Gregório (acho que não preciso explicar o que isto significa). Como o estômago estava vazio, parecia que o que queria sair não era o que estava dentro do estômago, porque não tinha nada, mas o estômago em si… fiquei com tantas dores de barriga que quando cheguei a Lete-foho mal podia andar. Bebi muita água e aos poucos fui ficando bom até que consegui tomar o pequeno-almoço.

Imediatamente combinamos o programa da promoção vocacional com o pároco, o padre Hélio, e decidimos que depois da missa das 8h teríamos uma sala disponível para falar com os jovens. Aceitamos apenas jovens com mais de 15 anos, por serem os que já têm idade para entrar no seminário e aceitamos tanto rapazes como raparigas (as Irmãs Clarissas também precisam de vocações). A missa foi presidida pelo Frei Isidóros e a igreja estava completamente cheia, deviam caber, pelo menos, 600 pessoas.

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Antes da bênção final veio o nosso primeiro momento, a nossa apresentação à comunidade. Alinhamo-nos todos em frente do altar e começamos a nossa apresentação dizendo o nosso nome, a nossa origem e, para os estrangeiros (eu e o frei Isidóros), há quanto tempo estávamos em Timor. Depois da apresentação cantamos uma música que tínhamos vindo a ensaiar há uma semana. A ideia seria cantá-la sem papel à frente de forma a podermos olhar para o público enquanto cantávamos, mas durante os ensaios reparamos que apenas o frei Manuel é que sabia as estrofes de cor. Para grande surpresa e humilhação nossa, que acabou por ser um momento de alegria, o grupo coral sabia cantar o cântico melhor que nós e também não tinham papel à frente. Isto tornou-se mais humilhante para nós, porque o cântico, de nome “Tamba hadomi” (“Porque o amor”), foi uma tradução feita pelo frei Fernando de um cântico português escrito por uma irmã religiosa.

Depois da missa deu-se o encontro com os jovens.

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Num momento descontraído e familiar o frei Isidóros apresentou um vídeo motivacional de um jovem Sul-americano, sem braços, filho de um pai tocador de viola que queria aprender a tocar viola tão bem como o pai, mas sem braços como o iria fazer? Pois bem, como a viola se toca com os dedos e não temos dedos apenas nas mãos, ele decidiu aprender a tocar viola com os pés. Praticou durante anos, cerca de 8h por dia, não foi fácil aprender, mas ele nunca desistiu até que conseguiu atingir o seu objectivo. E o sucesso foi tanto que numa das visitas do Papa S. João Paulo II à América do Sul o jovem tocador foi convidado a contar a sua história para o Papa e a tocar-lhe uma música. Foi tão lindo e comovente que o Papa chorou. Não há limites para a vontade e capacidade humana, se queremos muito algo temos que lutar por isso e acreditar, mesmo que nos demore uma vida inteira a ser realizado. Tudo é possível, temos é de lutar e acreditar em nós próprios. A reunião continuou connosco a falarmos um pouco mais especificamente das nossas actividades em Timor, quem foi S. Francisco de Assis e qual a especificidade do carisma franciscano, especialmente da Ordem franciscana capuchinha. O encontro terminou com um cântico “Desde que sou capuchinho” (Desta vez todos sabíamos de cor). Para que os jovens também pudessem acompanhar o cântico, ensinamos-lhes a parte do “la la la la la…” que é a mais difícil de se aprender… Terminamos o nosso encontro com uma oração e, já no exterior, tiramos uma foto de grupo.

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Após todas as fotos tiradas fui à sala buscar o material e ouço o sino das 12h a tocar. Ao sair da sala reparo que não há movimentação nenhuma de pessoas, sendo que à 5min atrás o que mais havia eram pessoas a circular. Começo a olhar para o pessoal que estava cá fora e todos estavam estáticos, não mexiam nem os olhos, pareciam estátuas. Fiquei assustado e a começar a pensar que tinha entrado na Twilight zone, que algo tinha congelado as pessoas e que, por algum milagre, eu teria sido o único sobrevivente. Até que ouço a voz de um homem a dizer qualquer coisa em Tétum, olho para cima e vejo o catequista a rezar e de seguida toda a comunidade a responder e foi aí que percebi tudo, a população estava a cumprir uma tradição há muito tempo perdida pelos portugueses de rezar o Angelus à hora do meio-dia. Rejeitei toda a teoria da conspiração que tinha pensado inicialmente e repreendi-me por não ter acompanhado o povo na oração. A gente está sempre a aprender coisas novas e esta foi mais uma lição para mim.

Depois do almoço regressamos a casa. O meu regresso foi mais tranquilo e o estômago, já recuperado, não se queixou mais. Já o frei Isidóros não pode dizer o mesmo, visto ter-se esquecido do seu portátil na casa paroquial. Felizmente deu fé a meio da viagem, mas ainda tivemos de esperar cerca de uma hora para que o pároco viesse ao nosso encontro para nos devolver o portátil. 

 

Foi uma aventura que deu frutos. Neste momento temos um aspirante a viver uma experiência connosco que se sentiu chamado após a nossa visita à sua comunidade. Esperemos que este fogo inicial que ele sentiu nunca se apague.

 

Paz e bem amiguinhos! Estaremos juntos na oração e no coração. 

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por missao em timor às 14:41



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