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Missão em Timor

Durante 3 anos estarei a fazer uma missão em Timor, pela Ordem dos frades menores capuchinhos, e neste blog tenciono contar todas as minhas aventuras e a percepção que vou tendo dos acontecimentos, tudo de uma forma peculiar que só eu sei viver :D



Sexta-feira, 03.05.13

Jesus Kristu Moris Iha's Ona Aleluia!!!!!

Olá amiguinhos! Eu sei que já estamos na Páscoa, mas ainda vos quero falar de como foram as minhas duas últimas semanas da quaresma. O frei Fernando decidiu inovar as coisas por cá, e como a zona de Tíbar está dividida por bairros, cada bairro, no Domingo de Ramos (dia 24), organizaria a sua via-sacra percorrendo todo o seu bairro de modo que a última estação fosse em casa das irmãs Franciscanas dos Sagrados Corações de onde se faria a bênção dos ramos seguido de uma procissão, para aclamar a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém, até à Igreja que fica mesmo em frente à casa das irmãs. Com tudo pensado há que começar a preparar as coisas. Fizeram-se 6 equipas constituídas por 1 frade, uma noviça das irmãs Concepcionistas ao serviço dos pobres, uma postulante e uma Irmã das irmãs Franciscanas dos Sagrados Corações. Eu fiquei com o bairro 1, o bairro maior, e com uma equipa fantástica, dinâmica, animada e com grande sentido de humor. A primeira reunião com o chefe do bairro deu-se no sábado (dia 23). Explicamos em pormenor tudo o que se iria passar, qual a função destinada aos moradores do bairro e preparamos o esquema com a escolha dos respectivos cânticos. Como o bairro é grande o chefe do bairro decidiu que se devia dar início à via-sacra às 6:30h de modo a que às 9:30h estivéssemos em casa das irmãs para dar continuidade à celebração. Quando, em casa, começamos a ajustar o horário da fraternidade para que todos pudéssemos estar presentes na oração da manhã e também tomarmos o pequeno-almoço juntos eu fui completamente gozado… não havia nenhum bairro, nem mesmo o bairro 2 que é logo ao lado do meu, que começasse a via-sacra antes das 7:30h… Os frades riam-se quando falava nas horas previstas para começar a “minha” via-sacra, e mandavam piadas tipo “Mas a tua via-sacra começa em Dili?” ou “Se calhar é melhor ficares por lá a dormir” ou “Se calhar é melhor começares mais cedo, não queremos que te atrases” ou “Estão a pensar fazer uma pausa a meio para o pequeno-almoço?”, entre outras tantas… as piadas duraram a semana toda até depois da Páscoa… Chegou o Domingo de Ramos, aqui o madrugador acordou às 5:00h, a morrer de sono e a rogar pragas a quem decidiu começar a via-sacra tão cedo… era o único na casa acordado… Tentei tomar o pequeno-almoço, mas como não consigo acordar e comer logo a seguir fiquei-me por um café e meio pão e fiz-me à estrada, já por volta das 6:00h. Tudo escuro, não via um palmo à frente do nariz, estradas desertas, ao longe ouviam-se latidos de cães, parecia estar dentro dum filme de terror no meio de uma floresta deserta, escura e selvagem. Chego ao local do ponto de encontro marcado com as irmãs ainda antes das 6h, esperava impacientemente a chegada da noviça Ângela, da postulante Margareth e da irmã Rose, enquanto dois cães, no outro lado da estrada, não paravam de ladrar para mim. A impaciência começava a tomar conta de mim, as 6h já tinham batido há muito e nem sinal das mulheres (pelos vistos o atraso feminino é um factor comum em todas as culturas). Dadas as 6:20h umas sombras começam a aparecer ao fundo da estrada, era ela, de certeza e não vinha sozinha, trazia em sua companhia outras noviças destacadas para outros bairros. Estava pronto para descarregar nela toda a minha fúria por causa do seu atraso (e eu que detesto esperar), mas a forma delicada com que me pediu desculpa e o sorriso angelical (faz jus ao nome dela) com que me deu o bom dia fez desaparecer todo o aborrecimento que ensombrava o meu coração. Apesar da irmã Rose e da Margareth ainda não terem chegado ao ponto de encontro, decidimos ir para casa do chefe de bairro ultimar os últimos preparos. Só a família do chefe de bairro se encontrava presente. Os moradores iam aparecendo às pinguinhas e, já perto das 6:40h, apareceram as irmãs que faltavam. Reunimos toda a comunidade e iniciamos a via-sacra eram já 7h. A via-sacra foi feita com calma e muito reflexiva parando uns segundo em cada estação para que se meditasse bem o mistério da Paixão de Jesus e apesar de toda esta calma a via-sacra durou pouco mais de uma hora. Andei eu a acordar mais cedo que as galinhas para no final voltar a apanhar grande seca à espera que a celebração começasse… e claro, na hora do almoço levei ainda mais gozo tipo “Quase que não chegavam a tempo, foi mesmo no limite…” “Quando combinares o compasso agora para a Páscoa é melhor marcares para as 4h…” e coisas assim… Até eu já gozava com o assunto… Ao menos a tarde desse Domingo deu para dormir e recuperar o sono perdido Já no culminar da quaresma, começaram as celebrações da paixão, morte e ressurreição do Senhor. Na quinta e no sábado a oração da manhã, as laudes, foram rezadas na capela de Tíbar juntamente com toda a comunidade (ou o pouco que dela apareceu) e o almoço de quinta-feira foi de grande festa, era a celebração do dia do Sacerdote. Como era eu o cozinheiro da semana decidi, mais uma vez, deliciar toda a gente com o meu melhor prato, a feijoada. Foi das melhores que fiz, limparam tudo, não sobrou nada… Começava a aproximar-se a Páscoa e, com ela, as respectivas reuniões com o chefe de bairro a fim de preparar o compasso. Seria a segunda vez que se iria fazer algo do género em Tíbar, pelo que quase ninguém sabia como as coisas funcionavam, excepto eu… Na sexta-feira (dia 27) entregaram-nos as pagelas com o que haveríamos de dizer ao entrar nas casas de modo que as pudéssemos, com antecedência, distribuir pela comunidade. No sábado tivemos a reunião de preparação com o chefe do bairro. Desta vez ia preparado, não aceitava começar antes das 7h, desta vez não ia madrugar, nem pensar nisso… Como sabíamos que a comunidade só começaria a aparecer 30min depois da hora marcada, decidimos marcar o ponto de encontro com a comunidade para as 6:30h, sendo que nós (eu e as irmãs) marcamos o nosso ponto de encontro para as 6:45h. Fui para casa satisfeito, desta vez sabia que não ia ser gozado, tinha quase a certeza que era por esta hora que os outros bairros também iriam começar. Assim que nos reunimos todos à mesa para almoçar começaram as piadas “então a que horas vais começar, às 4h?” “Se calhar é melhor ires para lá directo depois da celebração de logo à noite” “E vê se chegas a horas à capela, não te atrases”. Deixei-os gozar à vontade, assim que se calaram ergui a voz com orgulho e disse “Desta vez não vou para lá madrugar, vamos começar o compasso às 7h”. Começaram todos a rir às gargalhadas como desalmados… Mais uma vez eu iria ser o madrugador, todos os outros bairros começavam o compasso entre as 8h e as 9h… Domingo de manhã, depois de todos reunidos na casa do chefe de bairro, nem se atrasaram assim muito, dividimos as pessoas em duas equipas e começamos a proclamar em alta voz a ressurreição de Jesus. Eu fiquei no grupo da noviça das irmãs concepcionistas, a Ângela, e fizemos uma grande dupla, eu, com o altifalante ia gritando, com todas as minhas forças, pelas ruas e ao entrar nas casas, “Jesus Kristu moris ona aleluia” (Jesus Cristo ressuscitou aleluia) e ela, com a sua linda voz, cantava cânticos de ressurreição. Foi o grupo mais animado que eu vi naquele domingo. A cada casa que entravamos o grupo ia entrando cada vez mais no espírito da visita pascal, toda a gente, pelo menos os católicos, abriam as portas das suas casas para beijar a cruz e receber a sua bênção. Até os protestantes que se encontravam dentro da sua Igreja vieram à rua ver o que se passava e, claro, aproveitei para lhes dizer “Jesus Kristu moris ona, Aleluia” O nosso compasso acabou às 9:30h e a missa só começava às 10h. Tudo estava a correr como planeado, pelo menos pelo meu grupo, mas faltava ainda o grupo da Irmã Rose. Ela ficou com a zona do bairro mais dispersa e mais longa também, era de se prever o atraso. Chegaram ao ponto de encontro por volta das 10h e apesar de atrasados não negaram o lanche que já estava preparado. Das cruzes dos outros bairros chegavam notícias. Os bairros 3 e 4 já tinham chegado, o bairro 2 também estava atrasado e dos bairros 5 e 6 não havia sinal. Saímos rumo à Igreja já passava das 10:30h. Estávamos descontraídos, porque sabíamos que a missa não começava sem que todas as cruzes estivessem presentes. Pelo caminho cruzamo-nos com o grupo do bairro 2 e juntos encaminhamo-nos para a Igreja. Quando chegamos lá vimos o desespero das pessoas pelo já longo tempo que esperavam, principalmente o bairro 4 que ficava mesmo em frente da Igreja. Com a nossa chegada ficariam apenas a faltar dois bairros, o 5 e o 6. Entretanto um carro, a toda a velocidade (10km/h) entra pelo local onde se situa a Igreja, um rapaz com batina branca e uma cruz na mão salta do carro e corre com toda a ferocidade para dentro da Igreja para depois, passados 1min, sair desanimado. O rapaz, morador do bairro 5, pensava que estava atrasado para a celebração… Faltava o bairro 6. Os telemóveis começam a tocar, é preciso entrar em contacto com alguém de lá para saber o que se passa, qual o motivo de tal atraso… Afinal já estavam a caminho e não demoram muito a chegar, também de carro. Estavam cansados, desesperados e a darem graças a Deus por isto só se fazer uma vez por ano… Já passavam das 11:30h quando a missa começou com todos já mais calmos e animados. O almoço nesse dia foi em casa das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, para grande satisfação minha, porque era quase 13h e ainda nem tinha descongelado a carne que se usaria caso almoçássemos em casa… Pode-se dizer que até tive uma Páscoa bem animada! Desculpem o texto longo e a falta de fotos, o fotógrafo que as tirou voltou para Portugal sem me dar uma cópia delas… Paz e bem amiguinhos! Estaremos juntos na oração e no coração!

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por missao em timor às 02:43



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